Maschetto no Egito


21/04/2006


27o. post (O último)

 

ALEXANDRIA: O FIM DO BLOG

 

Alexandria é mais do que conhecida: Alexandre, o Grande, Júlio César, Marco Antônio, Cleópatra, os Ptolomeus, etc. . E a famosa biblioteca, incendiada pelos nossos amigos romanos, que não tinham a mínima noção do que estavam fazendo. Uma lástima, uma perda irreparável.

 

Alexandria é uma cidade mista: tem seus traços óbvios egípcios, o arabesco é normal e, graças aos gregos, tem características próprias da arquitetura grega, também. Ou seja, entre arcos mouros você vê colunas típicas gregas. Uma mistura interessante.

 

Nosso passeio (eu e o Bergh) foi curto, então demos uma volta pelo cais para ver a antiga fortaleza da cidade:

 

 

E, depois, fomos conhecer a nova Biblioteca de Alexandria. Claro, não tem o mesmo valor que a antiga, mas é um primor da arquitetura moderna, com uma iluminação natural perfeita e um salão de leitura para mais de 3000 pessoas, sendo que ainda conserva o único manuscrito que escapou do incêndio patrocinado pelos romanos:

 

 

Foram cerca de 5 meses, uma experiência incrível, numa terra formidável. Jamais imaginei um dia percorrer o Egito e, de repente, lá estava eu dentro da câmara mortuária de Quéops, ou mergulhando no Mar Vermelho, ou conhecendo Luxor, onde Moisés um dia pôs os pés...

 

Abaixo, a despedida na GM Egito:

 

 

E, antes da partida, o Ahmed Fawzy foi me visitar no hotel para levar flores e apresentar sua família. Um gesto inesquecível e marcante:

 

 

Espero que tenham curtido o blog e, em breve, novidades do outro lado do mundo.

 

Um abraço e SALAM !

Renato

Escrito por Renato Maschetto às 11h06
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26o. post

 

ASWAN: O TEMPLO DE ISÍS

 

Ok, demorou essa última parte, mas foi devido a problemas diversos...

 

Pegando o trem às 4h da manhã em Luxor, chegamos em Assuã cerca de 2 horas depois, e fomos para nosso passeio: o obelisco inacabado, a famosa represa de Assuã e o templo de Isís.

 

O obelisco inacabado tem esse nome pois, ao tentarem removê-lo da pedreira de origem, ele foi danificado. O destino do obelisco era Luxor, e ele era completamente "produzido" em Assuã e depois transportado pelo Nilo até Luxor. Alguém pisou na bola na hora da remoção, trincou o obelisco, e todo o trabalho se perdeu. Dá pra imaginar o que aconteceu com o rapaz...

 

E um dos passeios mais interessantes que fizemos foi ao Templo de Isís, que fica numa ilhota em Assuã. Construções impressionantes e razoavelmente conservadas. Detalhe: o templo estava submerso, e numa ação da UNESCO, ele foi desmontado submerso, cada pedra numerada e reconstruído acima da superfície novamente ! Se fosse um predinho, tudo bem, mas vejam o tamanho da criança:

 

 

 

 

 

 

 

Após essa visita e alguns transtornos referentes à famosa "bakshish" (gorjeta), voltamos para a cidade, almoçamos, e ficamos aguardando o horário do trem para retornarmos ao Cairo. E contemplando o belo pôr-do-sol às margens do Nilo:

 

 

A seguir, o fim do blog em Alexandria...

 

Salam !

Renato

 

Escrito por Renato Maschetto às 10h50
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18/12/2005


25o. post

 

LUXOR - PARTE 4(FINAL): OS TEMPLOS DE LUXOR E KARNAK

O templo de Karnak ("Fortaleza") continha, originalmente, apenas o templo
de Amun-Rá, o rei dos deuses. Porém, durante 2000 anos, cada faraó quis
deixar um legado exclusivo ao redor do local, mostrando sua grandeza e
poder. O resultado é um complexo de 300.000 m2, com construções belas e
impressionantes:




Destacam-se as imagens gigantes e o "hypostyle hall", uma área com 134
colunas com cerca de 20m cada. Além dos obeliscos de Hatshepsut (aquela
mulherzinha...), com 29m e 325 toneladas, e de Tuthmosis I, com 20m e 120
toneladas (aliás, foram os egípcios que inventaram os obeliscos):

 

 


O templo era dedicado a Amun e sua família: sua esposa Mut e seu filho
Khons, constituindo, assim, a tríade sagrada. Suas imagens ficavam no
templo para veneração e eram removidas na ocasião da "Festa de Opet" ou
"Festa do Harem".

Nessa festa, as barcas sagradas de Amun, Mut e Khon eram transportadas até
o Templo de Luxor por uma avenida de esfinges de 2,5km que interligava os
dois templos:


 

Há ainda resquícios das esfinges, na saída do Templo de Karnak e na entrada
do Templo de Luxor. A cidade cresceu no meio, ficando as demais esfinges
soterradas. Há um projeto para desapropriar a área e resgatar a avenida, o
que deverá tornar tudo muito mais interessante:



As barcas chegavam em Luxor e eram depositadas nos locais sagrados no
templo. Após cerca de 11 dias, retornavam à Karnak pelo Nilo.

 

O Templo de Luxor é menor que o complexo de Karnak, mas não é menos
impressionante. Construções e monumentos também de tirar o fôlego:

 

 

 



Uma das coisas mais interessantes e emocionantes de se ver nesses locais
são as inscrições nas paredes e colunas. Elas contam toda a história, e são
um registro real da época. Nossa guia explicava vários acontecimentos e
fatos, sendo que um deles é interessante: quando os egípcios partiram para
a guerra e perseguição dos judeus na ocasião do Êxodo, obviamente, as
mulheres ficaram "desacompanhadas"...eis que surge um certo rapaz que,
peculiarmente, tinha apenas 1 braço mas, sem fazer-se de rogado, "cortejou"
as pobres e solitárias mulheres. O resultado: um surto de gravidez por toda
a região de Tebas, fazendo com que a vida voltasse ao país. Visto como uma
"benção", o moço foi alçado à categoria de Deus da Fertilidade, e sua
imagem foi eternizada nas paredes antigas (reparem na falta do braço e no
"detalhe"):



Vivendo e aprendendo...


E Luxor foi um lugar inesquecível, mesmo com os vendedores irritantes. No
dia seguinte, pegamos o trem para Assuã, e fizemos um outro passeio
marcante, conhecendo a ilha do Templo de Isis...no próximo post...


Salam !
Renato

Escrito por Renato Maschetto às 08h18
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06/12/2005


24o. post

 

LUXOR - PARTE 3: OS VENDEDORES E KARNAK À NOITE

 

Para quem acha que ambulantes em São Paulo são chatos, ou vendedores em farol (ou ‘semáforo’ para as primas do sul...) são irritantes, vocês não imaginam o que há por aqui. Esqueçam tudo o que vocês já viram: no Egito, os vendedores atingem um nível de irritação e esgotamento de paciência dignos de fazerem o Dalai Lama surtar !

 

A regra é a seguinte: se você não quer comprar algo, olhe bem nos olhos do vendedor e seja direto e incisivo (e, ligeiramente, rude). Caso contrário, se ele notar um mínimo de hesitação, vai te perseguir e, quando você perceber, terá comprado uma calça horrível estampada com esfinges...porém, sempre há aqueles mais persistentes que (quase) conseguem estragar seu dia...

 

Voltamos para a cidade depois do templo de Hatshepsut, fomos para o hotel e depois fomos enfrentar os vendedores na rua quando saímos para almoçar. A cada 10m (não é em sentido figurado, era a cada 10m MESMO, literalmente) vinha um oferecer sua charrete para andarmos: "Excuuuse me, excuuuuuuuse me, Sir, Siiiir, excuuuuse meeeee...", "tú bound" (two pounds), "only tú bound...", "excuuuuse meeee..."

 

Argh ! E não adiantava falar que não queria ! Eles continuavam insistindo, perseguindo, grudando do seu lado ! E aí tentavam outras línguas: espanhol, francês, alemão...o curioso é que, geralmente, abordavam a gente falando em italiano, pois achavam que éramos da Mafiolândia...bom, os sobrenomes não negam...

 

Quando vimos que não tinha jeito, resolvemos tirar proveito da situação e curtir um pouco, já que notamos que o Português era uma língua desconhecida para eles. Aí, os diálogos ficavam sensacionais:

 

- Excuuuuse me, Siiiiir

- Não te entendo, sai daqui

- Hã ? Parla italiano ?

- Já falei, some daqui, a gente só quer andar

- Deutsch ?

- Você viu o jogo do Flamengo ?

- Español ?

- A Física Nuclear é fascinante...

 

E aí, ele desistia. Foram vários diálogos, além de citarmos as mais interessantes nacionalidades:

 

- Where are you from ?

- Suriname...

- Hã ?

- Guiana...

- Gaiana ?

- No, Guatemala...

- Hã ?

- Sai fora...

 

Além de cantar "Garota de Ipanema" e pedir dinheiro em troca...ô dó...

 

À noite fomos ao Templo de Karnak para o "Sound & Light Show". Karnak foi o maior e mais impressionante centro religioso do antigo Egito. É um complexo monumental, sendo que em seu centro encontra-se o templo de Amon-Rá, o rei dos deuses.

 

Nesse show eles combinam uma iluminação especial com narração e música, enquanto avançamos dentro do templo. Enquanto caminhamos, vamos ouvindo a história de cada pedaço do lugar, qual faraó construiu cada coisa, quem era o mais megalomaníaco, etc. . É algo inimaginável. Abaixo, algumas fotos noturnas durante o show (as melhorzinhas que eu consegui tirar):

 

 

 

 

Apenas para constar, todo mundo aí conhece a história de Moisés e os judeus no Egito, não ? Todo mundo lembra que Moisés desafiou um faraó a mando de Deus e, após o evento das pragas, os judeus foram libertados da escravidão...pois é: nessa época, o faraó era Ramsés II, que governou o Egito de um lugarzinho chamado Tebas ! Ou seja, Luxor ! Ou seja, aqui é onde o rapaz botou o faraó pra correr ! Aqui é onde Moisés pisou ! AAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHH !!! (vixi, a Doroti vai delirar!)

 

No próximo post (na 6ª. Feira) coloco as fotos diurnas do Templo de Karnak e do Templo de Luxor. A história da ligação entre eles é bem interessante.

 

Salam !

Renato

Escrito por Renato Maschetto às 03h21
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02/12/2005


23o. post

 

LUXOR - PARTE 2: O VALE DOS REIS E DEIR AL-BAHRI

 

Saindo do "East Bank" rumo ao "West Bank", onde fica o Vale dos Reis, paramos em frente aos Colosso de Memnon, duas estatuas do farao Amenophis III que, antigamente, guardavam a entrada de seu templo:

 

 

Atras das montanhas que se veem ao fundo, fica a necropole para onde fomos.

 

Chegamos ao Vale dos Reis por volta das 7h. Areia e montes de pedra para todo lado e, encravadas nos montes, ficam as varias tumbas dos antigos reis:

 

 

Visitamos 3 tumbas: Sethos II, Tutmosis III e Ramses IX. Pra variar, nao podiamos tirar fotos dentro, porem, no interior de cada tumba sempre tinha um "tiozinho" cuidando que, com um jeito bem brasileiro, informava, por meio de sinais, que ele nao ia contar nada pra ninguem se a gente tirasse uma foto...ou seja, la vinha gorjeta pro veinho...tudo bem, LE 1 pra ele (1 Egyptian Pound, que da menos de R$ 0,50), e umas fotinhos dentro da tumba de Tutmosis III:

 

 

As entradas de cada tumba sao diferentes, essa e a de Tutmosis III:

 

 

E essa e a de Ramses IX:

 

 

Nao visitamos a tumba de Tutancamon, pois e pequena e sem graca. Apenas uma foto para constar:

 

Saindo do Vale dos Reis, fomos para a regiao de Deir al-Bahri, onde encontra-se o fantastico templo mortuario da rainha Hatshepsut:

 

 

Essa mulher foi esperta: el era filha de Tutmosis I, e casou-se com seu meio irmao, Tutmosis II, que morreu jovem. Como nao havia sucessores diretos, ela se proclamou co-regente com o jovem Tutmosis III, filho de Tut II com outr mulher. Porem, depois de dar um chapeu em Tut III, ela se proclamou farao (o que nao era permitido para uma mulher) e, em todas as suas imagens, sempre se apresentou como homem, usando barba falsa e roupas masculinas, como mostram as imagens nas paredes do santuario de Anubis, em seu templo:

 

 

Tutmosis III, quando assumiu o trono apos sua morte, ainda tentou se vingar apagando seu rosto das imagens mas, gracas a sua esperteza, imagens sobreviveram: em algumas gravuras, Hatshepsut se apresenta portando objetos divinos (do deus Amon-Ra) e, sendo dupersticioso, Tut III nao arriscou mexer nisso. E, assim, ela se perpetuou ao longo dos seculos...

 

 

Foi um passeio extremamente interessante, mais ainda pelo fato das escolas levarem suas criancas la e, a cada bando que passava, comecavam a gritar "Hello! Hello! What`s your name? How are you? Hello!"...comedia !

 

A seguir, o assedio dos vendedores e o Light & Sound Show no Templo de Karnak...

 

Salam !

Renato

Escrito por Renato Maschetto às 16h30
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28/11/2005


22o. post

 

LUXOR - PARTE 1

 

Finalmente, após esses meses no Egito, consegui visitar um dos lugares mais fascinantes desse país: Luxor ! Ou, como era conhecida antigamente, Tebas, a capital do Egito no período do Novo Reino (a partir de 1550 b.C.).

 

O nome Luxor é uma corruptela do árabe "El-Uqsor" ("Local dos Palácios"), pois é o que se vê do lado Leste da região: não palácios, mas enormes templos que deixam qualquer um boquiaberto...

 

Já no lado Oeste, há o famoso "Vale dos Reis", o local onde encontram-se as tumbas dos faraós que reinaram durante o Novo Reino, ou seja, entre as 18ª. e 20ª. Dinastias. Até hoje foram descobertas 62 tumbas de faraós, sendo que a de número 62 é a do mais famoso, Tutancâmon, que é, na verdade, um dos menos expressivos em termos de poder, pois reinou apenas por 9 anos. A importância de um faraó era medida pelos anos em que permanecia no trono e, nesse quesito, Ramsés II foi imbatível: 67 anos (e mais de 100 filhos...) !

 

Alguns dados geográficos podem ajudar a entender um pouco melhor a região de Luxor. Vejam o mapa abaixo:

 

 

 

Ao leste do Nilo está a cidade de Tebas, propriamente dita, com seus templos e sede administrativa do Novo Reino. A Oeste está a Necrópole, com o Vale dos Reis, o Vale das Rainhas e as Tumbas dos Nobres. Porquê essa divisão ?

 

Os egípcios veneravam o deus Amon-Rá, sendo que Rá era o Sol. Como o sol nasce no Leste, essa parte de Tebas era considerada a região da vida, da luz, da prosperidade. Aí instalou-se a cidade. Já no Oeste, que é onde o sol se põe, considerava-se que lá Rá descansava, e associava-se isso à morte, ao repouso eterno. Por isso, os antigos egípcios escolheram o Lado Oeste para enterrar seus mortos, especialmente seus faraós.

 

Não façamos confusão com as pirâmides: estas são túmulos também de faraós, porém, pertencentes ao Reino Antigo (de 2670 aC a 2150 aC), cuja capital era Mênfis, se vocês se lembram de um post meu anterior. No Reino Médio tivemos a transição progressiva do poder para Tebas, o que foi concluído no Reino Novo.

 

A título de curiosidade, essas são as divisões dos reinos:

 

2670 aC a 2150 aC Reino Antigo

2150 aC a 2056 aC 1º. Período Intermediário

2056 aC a 1650 aC Reino Médio

1650 aC a 1550 aC 2º. Período Intermediário

1550 aC a 1076 aC Reino Novo

1076 aC a 712 aC 3º. Período Intermediário

712 aC a 332 aC Período Tardio

332 aC a 395 dC Período Greco-Romano

 

Bem, saímos do Cairo na 4ª. Feira à noite, e fomos para Luxor num "sleeping train"...muita gente me desaconselhou, perguntou porque eu não ia de avião, etc...mas considerando que de trem era cerca de 75% mais barato, e considerando que a viagem era noturna (ou seja, íamos dormir mesmo), porquê não ? Foi interessante, a cabine era razoável, e ela se convertia em camas, tendo até um certo conforto para dormir (bem melhor que num avião).

 

 

 

Chegamos em Luxor às 5:30h da manhã, o guia nos pegou na estação, e nos deixou no hotel, avisando que nosso passeio começaria às 6h !

 

Um parênteses aqui: a estação de Luxor é medonha ! A visão é fantasmagórica quando se desce do trem: entulho para todo lado, buracos, sujeira, desolação. Não é exagero:

 

 

Mas o que vale é a experiência...enfim, às 6h nossa guia chegou e nos conduziu ao Lado Oeste do Nilo, para que pudéssemos, finalmente, conhecer a famosa Necrópole, o Vale dos Reis...

 

A seguir: as tumbas e algumas fotos internas (proibidas, mas permitidas mediante um pequeno "bakshish", ou "gorjeta"), além do impressionante templo de Hatshepsut, uma das mulheres mais espertas da Antiguidade...

 

Salam !

Renato

Escrito por Renato Maschetto às 12h35
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23/11/2005


21o. post

 

JANTARES, COMIDA, AAAAAAAAHHHHHHHHH !!!

 

Sabe aquela coisa que a gente sempre ouve sobre os povos orientais - em especial sobre os árabes, o povo do Oriente Médio e vizinhanças - em relação à hospitalidade, fartura, etc. ? Pois é, sentimos isso na pele nessa semana (e no estômago, no esôfago...)

 

A Selma estava a trabalho no Japão e, na volta, parou aqui por 1 semana. O Bergh, camarada nosso da GMB, está trabalhando aqui por 1 mês. Ou seja:

 

Combinação de brasileiros + povo egípcio animado = convites para jantar

 

Fomos na 2a. feira jantar na casa do Tarek (meu cara aqui de Qualidade) e ontem, 3a. feira, na casa da Samia (minha secretária). Que desespero...

 

Em primeiro lugar, eles convidam dizendo que se sentiriam honrados em nos receber como convidados para jantar. E, já sabendo que é extremamente ofensivo recusar, aceitamos na primeira ! E, pra falar a verdade, com vontade de comer a comida egípcia caseira mesmo !

 

Ao chegar na casa do Tarek na 2a. feira, fomos recebidos pela família dele e, de cara, o primeiro "aperitivo": Suco de Karkadeh ! Sim, ele mesmo, o fatal, o letal, o famigerado ! Mas, como já falei, ele agora é meu amigo e bebi-o sem culpa. E era 435 vezes MELHOR que o do hotel !

 

Aí, fomos para a mesa. Foi quando começou o PESAdelo. O cardápio:

 

Sopa

Picles

Macarrão ao forno

Pastelão de carne

Carne assada ao molho de champignons

Carne assada com temperos diversos

Peru

Arroz

 

Tudo isso de uma vez e, caso vocês estejam achando que era pra escolher o que comer, nada disso: tinha que comer de tudo, experimentar de tudo e não a porção do tamanho que você escolhesse, pois quem colocava no prato era a esposa dele, ou seja, vinha aquela enxurrada de comida ! E se falava que não queria, vinha um bico do tamanho de um bonde e um olhar de desaprovação ferocíssimo, significando implicitamente "se eu fosse você, ficava quietinho e comia..."

 

Só sei que depois da 3a. porção eu já não via mais nada, não sentia mais as pernas, não lembrava meu nome...e a comida continuava vindo, e o restinho que ficava no prato era motivo de condenação...olhava pra Selma e ela ia batendo o rango valentemente; olhava pro Bergh e ele já estava agonizando como que nos minutos finais da vida...e a Selma falava pra ele "come pelo menos um pouquinho, senão eles ficam chateados", e parecia que ele ia morrer...eu estava a ponto de chorar e pedir pelamordedeus pra não colocarem mais comida no prato porque senão ia ficar mais chato passar mal e devolver tudo ali mesmo...

 

Não me entendam mal: a comida estava SENSACIONAL ! Mas era muita coisa de uma vez ! Foi difícil convencê-los que não cabia mais. Minha impressão foi que a esposa dele achou que não gostamos da comida...mas lutamos bravamente, podem ter certeza...principalmente pra ter que comer o cheesecake depois (e nem de cheesecake eu gosto...ai...) !

 

Ou seja, ao voltar pra casa, parecia que eu tinha sido violentado, e foi complicado pegar no sono...principalmente porque eu já estava imaginando o esquema do jantar do dia seguinte...

 

Aí, na 3a. feira, fomos jantar na Samia. Depois de 1 hora perdidos, pois o Ali fez uma leve confusão entre "vira na 1a. à esquerda" e "vira na 1a. à direita", chegamos ao nosso destino. Lá, fomos recebidos por ela e pela irmã, e pelos pais dela, que se mostraram imensamente felizes por nos terem lá jantando com eles.

 

Já preparados psicologicamente - mas não fisicamente - tomamos um suquinho de laranja com cenoura como aperitivo e fomos pro fight. O cardápio:

 

Sopa

Charuto de folha de uva, de repolho e de abobrinha

Pastel de carne (de novo)

Batata recheada

Pato assado

Pato ao molho de laranja

Pombo...

 

Pombo ? Sim, o pombo é uma iguaria no Egito. Ele é recheado com arroz e temperos e, na verdade, carne que é bom, tem só um pouquinho, e tem um leve gosto entre frango e carne de vaca (aliás, é carne escura, não é branca).

 

Felizmente, eles nos deixaram à vontade para nos servirmos e escolhermos o tamanho da porção, mas tinha que provar de tudo ! E dá-lhe comida, e judia do estômago, e afrouxa o cinto e se prepara pra passar mal depois...mas não tinha jeito, ainda mais com o pai e a mãe lá, já mais velhos, felizes com a visita...não podíamos decepcioná-los, então, vamos pro desastre ! E comida boa !!!

 

Enfim, foram experiências interessantes e peculiares ao extremo. Só espero que não venham muito mais convites, senão eu vou abrir o bico...coitado, o Bergh já tá até meio torto...

 

E hoje vamos pra Luxor, de trem ! São 9 horas de viagem, tem jantar e café-da-manhã no trem, com direito a cama e tudo mais. Ficamos 2 dias lá e aí descemos pra Aswan, e voltamos no sábado, chegando no Cairo no domingo. Em Luxor, finalmente, vamos ver o Vale dos Reis, onde ficam as tumbas de vários faraós, entre eles, de Tutancâmon. Na volta eu coloco as fotos.

 

Um abraço a todos e cuidem-se por aí. Aqui tá frio pra caramba...hoje de manhã, 9oC !

 

Salam !

Renato

Escrito por Renato Maschetto às 13h19
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15/11/2005


20o. post

 

TÁ FRIO !

Estive meio relapso quanto ao blog nos últimos dias, mas o trabalho está pegando. Tem sido difícil acessar a net e fazer as atualizações e, como não consegui fazer muitas coisas diferentes, nem tem tanta coisa mais interessante pra falar nesse momento.

Na semana que vem, se tudo der certo, irei para Luxor e Aswan. Aí sim, tem novidade. Afinal de contas, é o Vale dos Reis, onde vários faraós foram sepultados, incluindo nosso amigo Tutancâmon. Mas deixa pra outra semana...

Por aqui, tudo caminhando. Com a diferença que está frio ! Sim, frio de verdade ! Durante o dia, dá uma máxima de uns 20oC - 21oC. Pela manhã e à noite, entre 12oC e 13oC ! Friaco !!! Quem mandou reclamar do calor ? Só porque pegou 42oC em Agosto, agora vai passar frio ! Felizmente, a jaquetinha veio me acompanhar nessa empreitada...

Não tive mais problemas com o Karkadeh (ou Hibisco, se assim preferirem...), não botei fogo em outros pães, enfim, já sou quase um nativo...tá, tá bom...

Anderson, fale pro seu irmão que o Scorpions vai se apresentar aqui, ao pé das pirâmides, no dia 17 (nesta 5a. feira). O ingresso é caro, convertendo dá uns US$ 90. E ainda será versão Unplugged, ou seja, mais farofa do que o normal...vixi, ele vai ficar brabo...

Quanto a mim, estou na contagem regressiva pro Dream Theater, em Dezembro. Ahn, bem, eu me programei pra voltar...se não tiver mais surpresas...

Hoje é feriado no Brasil. Espero que todos estejam aproveitando a folga, já que é o último prolongado do ano. Eu já perdi 7/Set, 12/Out, 15/Nov...mas não posso reclamar, a oportunidade aqui tem sido extremamente recompensadora. Pesada, mas gratificante.

Fico por aqui. Deixo com vocês algumas outras fotos da minha viagem pra Sharm El Sheikh, na península do Sinai, que eu não publiquei antes:

- Estrada para Taba (desertão total):

 


- Praia em Taba:




- Alojamento na praia, em Taba, muito frequentado por israelitas, acreditem se quiserem:





Salam !
Renato

P.S.: Diário Compostelar atualizado (www.maschetto.nafoto.net)

Escrito por Renato Maschetto às 15h55
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06/11/2005


19o. post


BOTEI FOGO NO PAOZINHO...


Ok, demorei pra colocar esse novo post. Tive problemas internéticos, então ficou difícil o acesso ao Blog Configurator Masterplus Tabajara.


Pois é, essa mania de experimentações ainda pode acabar em acidentes...quando estive no Panamá no ano passado, havia no hotel um sistema peculiar de "tostador de pães": ao invés da tradicional e vintage torradeira, em seu lugar encontrava-se uma espécie de "esteira", onde colocava-se a fatia do pão de fôrma, que era levada para o interior do aparato tostador e, após alguns segundos, o pão saía - obviamente - tostado do outro lado. Interessante.


Eis que no hotel aqui deparo-me novamente com tal dispositivo. Já experiente conhecedor dessa nova tecnologia, utilizo-a sem pudor, inclusive instruindo ingênuos senhores e senhoras que gastam seu tempo tentando desvendar os mistérios da miraculosa esteira...


À busca de constantes inovações, começo a desbravar o mundo da esteira tostadora utilizando novos formatos e tipos de pães, sendo que o bagle dividido ao meio torna-se um grande sucesso para meu paladar ! Gênio !


Porém, como já dizia George Lucas, "toda saga tem um começo"...e foi no dia em que o bagle não estava lá...


Não vendo o bagle naquele dia e já cansado das torradas tradicionais, tranquilamente tomei em minhas mãos uma espécie de pãozinho francês redondinho, dividi-o ao meio e, sem mais delongas, coloquei-o habilmente na famigerada esteira...o único problema foi que não atentei para a altura do pãozinho, que era ligeiramente (alguns milímetros)maior que a altura mínima no interior da maquineta...


Pois bem, quando o pão penetrou para o interior do aparato, por curiosidade (e sorte) abaixei-me para verificar se tudo corria bem. Aí, percebo que o pão estava entalado, e uma fumaça densa começava a emanar do aparelho...começando a entrar em pânico, eis que a primeira chama eclode, e a porcaria do pãozinho começa a pegar fogo ! E pensei: "visto que isso é elétrico, acho que vou causar um bom incêndio aqui...". Calmamente, viro-me para o garçom e digo:


- Aham...excuse me...
- Yes, Sir, good morning, how can I help you, Sir ?
- Ahn...well..I think that the bread is on fire...
- What ??? Oh, God, Hamala, Ahamala,Allah...


E o coitado tenta, desesperadamente, remover a evidência criminosa do delito pirotécnico de dentro da Esteira Ordinária ! E eu, ao lado, assoprando instintivamente, como se a adição de oxigênio ao fogo não fosse piorar a situação...


Após alguns segundos de árdua batalha, o pão carbonizado é removido, a fumaça se dissipa, e a paz volta a reinar no hotel...ao que o garçom se volta para mim e diz, após meu cabisbaixo "I'm so sorry...":


- No problem, Sir, but, please, use only toasts...


Ok, sem mais experimentos alternativos. E a vida continua...abaixo, mais algumas fotos do hotel:



 

 

 

 

 


Salam !
Renato


P.S.: Diário de Bordo Compostelar atualizado (www.maschetto.nafoto.net)

Escrito por Renato Maschetto às 08h52
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18/10/2005


18o. post

 

O RIO NILO

 

Que injustiça. Há quase 3 meses em terras faraônicas e eu ainda não falei nada do Nilo, o rio mais famoso do mundo (só não é o maior porque há pouco tempo começaram a retomar as medidas do Amazonas e constataram que é mais extenso, além do Mississipi-Missouri).

 

"Em um longínquo passado, cerca de cinco mil anos atrás, os súditos do faraó Zoser, fundador da III Dinastia do Reino Antigo, sofriam com a ausência, já por sete anos seguidos, das enchentes anuais do Rio Nilo. Só com o transbordamento das águas, inundando o solo e enriquecendo-o de nutrientes, é que poderiam iniciar as plantações que garantiriam seu sustento. A situação estava insuportável. Zoser, desesperado, convocou seu braço direito, o sábio Imhotep, criador das primeiras pirâmides, para saber onde ficavam as fontes primárias do Nilo. O faraó pretendia viajar até lá para encontrar-se com os deuses do rio e suplicar-lhes compaixão para seu povo. Mas Imhotep respondeu que os livros sagrados já lhe haviam dado a solução. Khnum, o deus da primeira catarata, tinha causado tanta fome porque estava zangado por não terem cuidado do seu templo. Imhotep invocou Khnum com súplicas até que o deus cedeu, fazendo retornar as enchentes e terminar a fome crônica."

 

Essa estória, grafada em hieróglifos, foi encontrada numa pedra de granito por um escultor que vivia perto da primeira catarata do Nilo, já na era moderna. E mostra a importância dele para a região, desde os primeiros faraós do Antigo Egito. O Egito cresceu graças ao Nilo pois, de que outra forma uma civilização poderia sobreviver no meio do maior deserto do mundo ?

 

"O Egito é uma dádiva do Nilo", como dizia Heródoto.

 

O Nilo tem cerca de 6.500km de comprimento, e atravessa a região mais árida do mundo sem receber, nessa região, a ajuda de qualquer afluente. Até que começa a fazer sentido essa estória de deuses, não ???

 

 

 

O Rio Nilo nasce no Lago Vitória, o segundo maior depósito de águas frescas do mundo, situado perto da linha do Equador, entre as fronteiras da Tanzânia, Quênia e Uganda. Recebe um reforço ainda na Etiópia (Nilo Azul), no Sudão (Nilo Branco) e, após atravessar oito países (Uganda, Sudão, Etiópia, Zaire, Quênia, Tanzânia, Rwanda e Burundi, com seus afluentes), depois de sete cataratas atravessa a fronteira do Egito e ruma ao Mediterrâneo.

 

Desde o começo da civilização egípcia, por volta de 3.200 a.C. (ou há mais de 5 mil anos), o Nilo tem sido o principal elemento alavancador da atividade humana da região e, por isso, foi louvado e usado, na mesma proporção. O faraó Akhenaton dedicava-lhe preces, enquanto Amenamhat III construiu a primeira barragem, na cidade de Fayoum, para inaugurar um inédito sistema de irrigação por canais.

 

A necessidade de estender os benefícios do Nilo por uma área cada vez maior provocou, ainda no Antigo Egito, o desenvolvimento da ciência de construção de canais que serviam tanto para irrigar terras áridas como meio de transporte. A maior parte das grandes construções egípcias - incluindo as pirâmides de Giza - só foram possíveis graças ao sistema de transporte, sofisticadíssimo, que os egípcios desenvolveram através de canais, por onde foram transportadas pedras de granito de até 60 toneladas. É bom lembrar que, naqueles tempos, apenas o burro era usado como animal de carga. Os camelos só passaram a existir na região muito tempo depois, com a vinda dos árabes e da religião muçulmana, por volta de 600 d. C.

 

Na Antiguidade, dois importantes pólos se desenvolveram ao longo de 1300 quilômetros da trajetória do Nilo sobre o Egito: Mênfis, capital do Baixo Nilo, e Tebas, capital do Alto Nilo. No decorrer de mais de 3 mil anos de história, cerca de 30 dinastias se sucederam, alternando o centro de poder entre as duas capitais, até o término oficial da civilização egípcia, marcada pela chegada de Alexandre, o Grande, em 332 a.C, que expulsou os persas da região.

 

Ou seja, o Nilo é, realmente, a razão de ser do Egito:

 

 

 

E aí vão algumas fotos que tirei de fora do hotel, pois o Nilo passa exatamente ao nosso lado, cortando o Cairo inteiro:

 

  

 

  

Salam!

Renato

Escrito por Renato Maschetto às 10h10
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11/10/2005


17o. post

 

QUEM CONSTRUIU AS PIRÂMIDES ?

 

Uma das perguntas que eu mais recebo por e-mail é essa (ao lado da famosa "E aí, tá tomando mais hibisco?"...humpf...). E as teorias são as mais variadas e bizarras possíveis: foram deuses que as construíram; foram os extraterrestres; foi o povo da Atlântida...

 

Ainda me lembro de um gibi do Tio Patinhas que li há uns XX anos atrás, e tinha uma estória sobre a construção das pirâmides, e lá atribuía-se os méritos a uma poção que os egípcios tomavam que lhes conferiam poderes telecinéticos, ou seja, moviam os blocos com a força do pensamento. Aliás, era uma estória produzida na Itália, e me recordo que as italianas eram as melhores estórias de aventura, ao lado das mais bem humoradas serem as brasileiras (era fácil perceber a diferença através do traço do desenho)...mas, enfim, estamos falando de uma história em quadrinhos, certo ?

 

Coincidentemente (ou não?), na semana passada saiu uma matéria no "The Egyptian Gazette", o jornal que leio aqui, sobre a construção das pirâmides ! A matéria foi escrita pelo arqueólogo e egiptologista Dr. Zahi Hawass, Secretário Geral do Conselho Supremo de Antiguidades e Diretor de Escavações das Pirâmides de Giza. Ahn, será que ele conhece "um pouquinho" do assunto ???

 

 

Traduzi o texto e o coloco aqui, a fim de mostrar o ponto de vista "menos sensacionalista" dos estudiosos:

 

"The Egyptian Gazette

Segredos da Areia:

Quem construiu as pirâmides ?

Por Zahi Hawass

 

Muitas pessoas ao redor do mundo acreditam que a Grande Pirâmide de Quéops foi construída pelos homens da mítica Atlântida. Outros têm diferentes teorias, envolvendo alienígenas do espaço, por exemplo. Nenhuma dessas explicações tem base científica. Portanto, quando enviamos um robô dentro de uma das passagens da Grande Pirâmide, eu gostaria que todos soubessem que não estamos escondendo nada. Eu estive escavando em Giza com meu amigo Mark Lehner nos últimos 20 anos, e nós não encontramos nenhuma evidência que prove qualquer uma dessas teorias.

 

Por outro lado, descobrimos túmulos de nobres, oficiais, e sacerdotes que serviram os reis egípcios no Reito Antigo. E descobrimos os túmulos e casas dos homens e mulheres que construíram as pirâmides para esses reis. Esses túmulos e casas provam que as pirâmides foram construídas por egípcios, não por pessoas de uma civilização perdida. Nos túmulos, encontramos nomes e títulos de muitos construtores de pirâmides. Os nomes são egípcios, e têm títulos como "verificador do lado da pirâmide", e "verificador dos trabalhadores que carregam as pedras". Ao redor, há alojamentos de trabalhadores, refeitórios, e um enorme prédio administrativo. Cerca de 55 trabalhadores dormiam em cada alojamento, e 11 vacas e 33 cabras, suficientes para alimentarem 10.000 trabalhadores, eram preparadas diariamente.

 

Havia um núcleo permanente de artesãos e supervisores em Giza. Mas as pirâmides foram construídas com o apoio de utensílios de todo o país. As famílias enviavam seus jovens para auxiliarem nas construções, e em troca recebiam abonos em taxas e impostos. Acredita-se que os trabalhadores temporários eram trocados a cada 3 meses.

 

Trabalhavam do alvorecer ao pôr-do-sol, por 10 dias seguidos com 1 de descanso, mais os feriados. Obviamente, trabalhavam pesado, e seus ossos evidenciam o desgaste físico. Mas eram bem tratados, com serviço médico disponível. Um homem vivia por até 14 anos após ter sua perna amputada.

 

As pirâmides foram construídas por egípcios. Esses homens e mulheres devem ter se orgulhado de terem feito parte de um projeto nacional, construindo monumentos eternos para seus Reis-Deuses."

 

Aí está o relato dos profissionais. Mas nada impede os místicos e os demais curiosos de continuarem imaginando seus ETs, suas civilizações perdidas, não é mesmo ?

 

E aí vão mais 2 fotos que consegui do interior da Grande Pirâmide de Quéops. A 1a é do grande corredor que leva à câmara mortuária; a 2a é a câmara propriamente dita, com a caixa onde era colocado o sarcófago:

 

 

E o Ramadan continua. O trânsito é infernal até umas 17h. Depois disso, acho que a terra abre e engole os carros. O iftar (quebra do jejum) começa lá pelas 17:45h, e aí, lá pelas 19h, a terra regurgita os veículos e a zona continua...

 

Ponto interessante: todos os restaurantes colocam mesas e cadeiras nas ruas e servem o iftar aos pobres e pedintes que estiverem por lá, gratuitamente, todo dia. E, na frente da maioria das lojas e estabelecimentos, amigos e parentes se reúnem para comerem juntos e, como não há cadeiras para todos, sentam no chão e fazem sua refeição, tranquilamente. É uma cena diferente e marcante, com certeza.

 

Salam !

Renato

 

P.S.: Diário Compostelar atualizado (www.maschetto.nafoto.net)

Escrito por Renato Maschetto às 06h05
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03/10/2005


16o. post

 

RAMADAN

 

Amanhã começa o Ramadan, que é o mês sagrado para os muçulmanos. É o 9º mês do calendário islâmico e, segundo a tradição, é o mês durante o qual Allah revelou a Maomé (Mohammed) o Corão.

 

O mês não é fixo, e depende da lua (a lua nova indica o início do mês). Para os muçulmanos, esse período é marcado por orações, caridade e jejum, sendo que este último é um dos cinco pilares da fé islâmica.

 

Os cinco pilares da fé Islâmica são:

1) Shahada: profissão de fé

2) Salat: oração

3) Zakat: caridade

4) Sawn: jejum

5) Haji: peregrinação a Meca

 

O jejum é obrigatório do nascer ao pôr-do-sol, e trata-se de jejum absoluto: nenhum tipo de comida, nem de bebida, inclusive água. Além disso, os fumantes são proibidos de praticarem seu vício, o que pode deixar algumas pessoas relativamente nervosas. E esse é um dos motivos – ao lado do jejum – pelo qual o país desacelera (não só o Egito, mas todos os países islâmicos): a jornada de trabalho é encurtada em 2 horas, pois as pessoas vão pra casa a fim de quebrarem o jejum com suas famílias, o que é uma tradição e um dos principais aspectos do Ramadan, a reunião familiar.

 

As famílias acordam cedo para o suhoor, a refeição antes do nascer do sol. Já no início da noite, o jejum é quebrado com uma refeição chamada iftar, que começa, geralmente, com tâmaras e sucos, visando uma "carga rápida" de energia. À noite, é comum encontrar os muçulmanos orando nas mesquitas além dos horários normais, em orações mais longas próprias desse período. Alguns passam a noite toda rezando.

 

Na 27ª noite é celebrado o Laylat-al-Qadr, ou "A Noite Grandiosa", quando Maomé recebeu a primeira revelação do Corão. E ao fim do Ramadan, no 1º dia do mês de Shawwal, inicia-se a festa de Id-al-Fitr, ou "a festa do fim do jejum", que dura 3 dias. As famílias se reúnem, trocam presentes, etc. . Parecido com uma certa festa cristã que conhecemos...

 

Detalhe: como todo mundo sai mais cedo do trabalho e quer chegar em casa ao mesmo tempo, dá pra imaginar como fica o trânsito ? Já falaram pra eu nem esquentar a cabeça, que o negócio vai ser um show de horrores...

 

Só pra não ficar sem fotos, aí vai uma foto de um "Fanous", a lanterna típica que enfeita as ruas e casas durante o Ramadan:

 

 

 

Ramadan Karim !

 

Renato

Escrito por Renato Maschetto às 12h47
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29/09/2005


15o. post

 

KHAN EL-KHALILI

 

Ainda não falei do famoso Khan el-Khalili, o maior mercado a céu aberto do Oriente Médio, que existe desde o séc. 14. Era o centro comercial do Cairo naquela época, e ponto de escambo e negociação internacional, sendo parte do monopólio de especiarias que encorajaram os Europeus a procurarem novas rotas de comércio, e aí o Colombo foi parar na América, o Cabral a gente sabe o que aconteceu, etc...

 

Em outras palavras, é uma 25 de Março gigantesca, com todas as cores, becos, formas, cheiros e eteceteras que vocês podem imaginar...tem de tudo: jóias, roupas, perfumes, artesanato, condimentos, comida, chás, bugigangas em geral. E se você não souber ser convincente, os vendedores não largam do seu pé, e ficam te seguindo por um bom tempo. A regra lá é barganhar e tomar cuidado pra não ser enrolado pois, sabendo que você é estrangeiro, eles vão querer te esfolar. Mas aí prevalece o bom senso: se você acha que está caro, pule fora (esquema Sta. Ifigênia...).

 

Essa é uma rua típica do mercado, você se sente no filme Indiana Jones, não tem jeito:

 

 

Várias "coffee shops" circundam a área, uma ao lado da outra, com seus sofás na rua, shisha, gritaria, confusão:

 

 

O Ali me convidou pra tomar um chá numa delas, e fomos à El Fishawi, a mais antiga do lugar (tem 240 anos):

 

 

 

Ainda não comprei nada, mas não vejo a hora de entrar numa barganha nervosa com um vendedor. Se pra comprar os móveis do meu apartamento já dei dor de cabeça pras lojas, imagino aqui, eu falando em inglês, o cara não entendendo e querendo vender, e o Ali dando risada !

 

Alguém havia perguntado sobre as mulheres, acho que foi a Dani. Há uma visão generalizada e equivocada que todas as mulheres se vestem de preto, com o rosto completamente coberto. E há também uma idéia preconceituosa que isso é um absurdo, um desrespeito, etc. .

 

"Viajar é aprender a não julgar", li em algum lugar...nada mais correto: por acaso gostamos quando alguém fala que "brasileiro é tudo folgado", ou "no Brasil só existe violência" ? A mesma coisa se aplica a outras culturas e posso dizer que aqui o mundo é diferente. Mas, nem por isso, é melhor ou pior, tudo depende do seu referencial. Uma coisa é nascer e viver dentro desse sistema; outra coisa é olhar de fora e falar que é algo horrível. Puro preconceito.

 

A mulher pode usar a "burka", que a cobre dos pés à cabeça, e que é mais comum nos países onde a religião é mais radical: Afeganistão, por exemplo:

 

 

Em outros países, podem usar o "xador", que cobre o corpo e parte do rosto, deixando os olhos à mostra (comum na região do golfo):

 

 

E podem usar só um véu cobrindo os cabelos, que é o mais comum por aqui. E não pensem que é preto, as mulheres usam combinações que fariam muitas não-muçulmanas morrerem de inveja:

 

 

Muita gente acha que as mulheres ficam "menos bonitas" em virtude do véu. Para elas, ao contrário, uma forma de ficar bonita é, justamente, escolhendo bem o véu e a roupa. E usam maquiagem e acessórios normalmente. Mas, de novo, aqui no Egito e em outros países mais liberais.

 

No Líbano, por exemplo, a situação é diferente. As mulheres vestem-se como a maioria das ocidentais e, mesmo aqui no Egito, há muitas mulheres que não usam o véu. E isso é bem notado no canal de música aqui, a "MTV" da região, a "Melody Arabia": a maioria das cantoras é libanesa e não usam véus. Aliás, são bem "soltinhas", isso sim...

 

Amanhã termina o horário de verão e ficaremos a 5 horas de diferença do Brasil.

 

Bom final de semana.

 

Salam !

Renato

 

P.S.: Diário Compostelar atualizado (www.maschetto.nafoto.net)

Escrito por Renato Maschetto às 11h05
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22/09/2005


14o. post

 

CAIRO ISLÂMICO - PARTE 2

 

Penso que a maioria tem uma noção do que é o Islamismo, uma das 3 principais religiões monoteístas do mundo, ao lado do Cristianismo e do Judaísmo. Infelizmente, hoje associa-se Islamismo a Terrorismo de uma forma generalizada, o que é uma tremenda ignorância e desrespeito aos muçulmanos. A religião islâmica prega o bem e a submissão a Deus, o problema é a distorção dessa mensagem por certos grupos fundamentalistas.

 

Para os 3 grupos acima, há um só Deus, chamado "Allah" (em árabe) pelos muçulmanos e algo próximo a "Iaweh" (em hebraico) para os judeus (os judeus não pronunciam o nome de Deus a qualquer hora, por considerarem uma quebra do mandamento "não pronunciarás o nome de Deus em vão"). É o mesmo Deus, inclusive tendo as 3 religiões o mesmo patriarca, Abraão.

 

Por intervenção de Deus, Abraão teve um filho com sua esposa Sara, chamado Isaac, e sua descendência é a considerada pelos judeus e também pelos cristãos, já que foi daí que posteriormente nasceu Jesus, a partir da promessa feita por Deus a Abraão no episódio da 1a. Aliança.

 

Os muçulmanos, porém, consideram outro fato: por não conseguir ter filhos com sua esposa Sara, Abraão procura sua empregada, Agar, e tem com ela um filho chamado Ismael. Maomé, o fundador do islamismo, seria descendente de Ismael.

 

Para os judeus, o Messias ainda não veio ao mundo, como relatam as profecias, tanto que sua contagem de anos é diferente da nossa, estando eles no ano 5765 . Para os cristãos, o Messias, filho de Deus, é Jesus. Já para os muçulmanos, o último profeta é Muhammad (Maomé), que recebeu a mensagem de Deus e redigiu o Quran (Corão).

 

Lembrando também que Abraão construiu a Caaba, em Meca (na Arábia Saudita), local para onde os muçulmanos se voltam ao realizarem suas orações.

 

Os muçulmanos têm 5 orações obrigatórias ao longo do dia: antes do amanhecer, perto do meio-dia, no meio da tarde, ao pôr-do-sol e à noite. Antes de cada uma delas, eles devem lavar o rosto, as mãos e os pés. Tiram os sapatos e fazem a oração onde estiverem: às 6as feiras, vão às mesquitas; nos demais dias, rezam em qualquer lugar, até mesmo na rua. Na GM, por exemplo, há salas reservadas para as orações: perto das 13h os funcionários vão ao banheiro lavar-se e, em minutos, o "Muazzin" chama os fiéis para a oração, proclamando o "Adhan" em alta voz, que é o convite à oração:

 

"Deus é o Maior !

Testemunho que não há outra divindade além de Deus !

Testemunho que Muhammad é o Mensageiro de Deus !

Vinde para a oração !"

 

Com a chegada dos árabes no Egito no séc. VII, o islamismo espalhou-se pelo país, e várias mesquitas foram construídas. Algumas seculares ainda existem, sendo que visitei 3 delas no final de semana: Sultan Hasam, Muhammad Ali e al-Azhar.

 

A mesquita-mausoléu de Sultan Hasam foi construída em 1356, perto da Cidadela, e é o maior monumento religioso medieval islâmico, e um dos maiores representantes da arquitetura islâmica:

 

 

Na foto abaixo, vocês podem ver uma construção que é uma espécie de lavabo. Aí, os muçulmanos lavam-se antes das orações:

 

 

Para que saibam a direção de Meca nas orações, as mesquitas têm uma parede com o "Mihrab", que é um nicho indicando a "Qibla", a direção de Meca (à minha direita):

 

 

Reparem que estou descalço, pois não se entram com sapatos nas mesquitas. Abaixo, outra foto de seu interior:

 

 

Depois, fui à Cidadela, e lá conheci a mesquita de Muhammad Ali, uma das mais famosas (vista por 2 lados), construída no séc. XIX:

 

 

Vejam a alta torre à esquerda: é o "Minarete" (algo como 'baliza' ou 'farol'), onde antigamente os Muazzin subiam e chamavam os fiéis. Hoje, modernos sistemas de som fazem essa função, o que faz com que a cidade ganhe uma atmosfera toda especial no horário das orações, pois as várias vozes proclamam ao mesmo tempo, gerando uma sonoridade muito bonita e interessante.

Dentro da mesquita, uma beleza enorme, vejam as luminárias:

 

 

No passado, elas continham velas. Imaginem o clima ! E abaixo, uma amostra da cúpula:

 

 

Por fim, fui até a mesquita de al-Azhar, "A Esplêndida", que foi a 1a. mesquita construída pelo fundador do Cairo, no ano 972:

 

 

Ela abriga a mais importante universidade islâmica do mundo, e pode também ser considerada a mais antiga universidade do globo:

 

 

Foi um belo tour. Não vai caber o Khan el Khalili, mas não tem muitas fotos, depois eu coloco.

Um bom final de semana a todos !

Salam !

Renato

 

Escrito por Renato Maschetto às 06h39
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19/09/2005


13o. post

 

CAIRO ISLÂMICO - Parte 1

 

Falar "Cairo Islâmico" é meio redundante, uma vez que 90% da cidade é muçulmana. Mas há uma área onde concentram-se as primeiras construções islâmicas do país, onde exatamente começou a colonização árabe. Fui visitar essa área no final de semana e, para entender melhor o passeio, montei um resumão da história, desde a invasão árabe no Egito:

 

- Séc VII: o general ‘Amr ibn al-‘As conquista o Egito, por ordem do Califa Omar, segundo sucessor de Maomé (califa significa "sucessor"), terminando o controle do Império Bizantino. Constrói então um acampamento para suas tropas, chamado al-Fustat;

 

- Séc IX: o líder militar turco Ahmad ibn Tulun é nomeado governador do Egito, e funda al-Qata’i ("os loteamentos"), ampliando o território original;

 

- Séc X: após anos de trocas de poder e etnias, o califa fatimida al-Mu'izz li-Din Allah coloca seus soldados no Egito e o conquista (Fatimida significa "descendente de Fátima", uma das filhas do Profeta Maomé). Al-Fustat é uma das principais cidades do mundo, mas o general Gawhar al-Siqilli pretende fundar uma verdadeira cidade imperial, à qual dá o nome de "al-Qahira" ("A Vitoriosa") pois, conforme a tradição, o planeta Marte ("al-Qahir" em árabe) estava em seu ascendente durante a fundação da cidade. Al-Qahira é o nome árabe para CAIRO. A partir daí, a cidade prospera e cresce, absorvendo outras culturas (bizantina, cruzados, etc.);

 

- Séc XII: com o enfraquecimento dos fatimidas, o vizir do califa al-‘Adid’s o retira do poder e assume o governo, reinando por 22 anos. Seu nome era Salah al-Din Yusuf al-Ayyubi, mais conhecido no Ocidente como Saladino. Salah el-Din reorganiza o país e conquista Jerusalém (ocupada até então pelos Cruzados) e a Síria. Cria as "Madrasas" (escolas islâmicas) e as "Khanqahs" (monastérios para os místicos sufis). Durante seu reinado, al-Qahira torna-se uma importantíssima metrópole e, sempre preocupado com a segurança do Egito, Saladino cria imponentes estruturas de defesa como a Cidadela (foto a seguir) e o forte na divisa com Israel (que pude ver à noite, na volta do Sinai, mas não consegui tirar foto);

 

- Séc XIII: ao invés de árabes, os exércitos passam a ser formados por escravos de origem turca, chamados Mamelucos (em árabe, "aquele que é de alguém"). Com a morte do último sultão sucessor de Saladino, sua esposa é obrigada a se casar para reter o poder, e casa-se com um líder Mameluco, iniciando assim sua dinastia;

 

- Séc XVI: a administração dos Mamelucos começa a entrar em declínio, principalmente por depender de mercenários. Com isso, as tropas do sultão de Constantinopla invadem e conquistam o Egito, tornando o país uma província do Império Otomano, fazendo com que o Cairo deixe de ser a capital do mundo Islâmico. Essa situação permanece até 1798, quando Napoleão chega ao Egito;

 

- Séc XIX: o mercenário albanês Muhammad ‘Ali (não, ele não é boxeador...) chega ao Egito em 1801 e, em 4 anos, graças às suas habilidades, assume o poder. Elimina toda a resistência inimiga num episódio famoso, ao convidá-los para um jantar na Cidadela, assassinando-os ao final do banquete. Graças a ele, o país assimilou a cultura ocidental e modernizou-se, e seus descendentes permaneceram no poder até meados do séc XX (1952);

 

Resumão mesmo, mas com os principais pontos. Não vou colocar todas as fotos hoje, vou colocar apenas algumas da Cidadela e, na 5ª. Feira, coloco as das mesquitas, mencionando alguns pontos importantes a respeito delas.

 

Essa é a cara da Cidadela de Salah al-Din, toda contornada por uma alta muralha:

 

 

Uma visão de dentro da Cidadela:

 

 

E o local onde Saladino mandou matar os inimigos:

 

 

Uma visão aérea do Cairo, do alto da muralha da Cidadela:

 

 

E em 1º. Plano, a Mesquita do Sultão Hasan (no próximo post, fotos de seu interior):

 

 

A propósito, há duas semanas tivemos a eleição presidencial no Egito, e foi a 1a. na história do país. Após a era dos reis, sendo o último o Rei Farouk, o país teve 4 presidentes: Naguib Mahfouz (1953), Gamal Abdel-Nasser (1954), Anwar Sadat (1970) e Hosni Mubarak (1981), que é o presidente atual e que ganhou a eleição com 88,5% dos votos. Desde o começo os egípcios diziam que a eleição já estava "ganha", ou seja, tirem suas conclusões...

 

No próximo post coloco algumas das mesquitas e o Khan al-Khalili, o famoso mercado árabe (ou vocês acharam que a Casa de Chá de São Paulo tinha inventado o nome???).

 

Salam !

Renato

 

Escrito por Renato Maschetto às 06h55
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